A revolução dos bichos

Por: Suziley dos Santos da Silva

 


 

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Data de 1945 a publicação de “Animal Farm”. “A Revolução dos Bichos” é por muitos considerado o maior libelo já escrito contra a dominação exercida em nome da liberdade. É uma crítica contundente ao despotismo.

Antes de seguir o conselho do então professor de Teoria Geral do Estado, Drº Paulo Thadeu Gomes da Silva, que recomendava esta leitura, vem à tona o seguinte questionamento: teria o conteúdo daquela fábula aplicabilidade ao mundo contemporâneo e pós-moderno? Eis a questão, diria Shakespeare.

 

1. “A Revolução dos Bichos” é o título da obra literária mais vendida mundialmente. O pequeno livro anda já pela 60ª edição. Um “best seller” de verdade. A princípio, tal título sugere um público infanto-juvenil. Aliás, esta é a sua classificação técnica. Todavia, assim como Esopo, na Grécia antiga, e La Fontaine, na França, o escritor Eric Arthur Blair, com pseudônimo de George Orwell, utiliza-se da fábula para retratar o comportamento humano. Orwell parece ter feito de tudo um pouco. Nascido em Bengala, na Índia, filho de pais ingleses, serviu na Birmânia; lutou na Guerra Civil Espanhola; foi soldado, mendigo, livreiro, lavador de pratos, professor e jornalista. Além do que, Eric foi discípulo de Marx. Primeiramente, da ala radical do trotskismo e mais tarde, convertido ao socialismo democrático.

 

2. Ocorre, preliminarmente, a descrição de alguns componentes da mencionada fábula. A estória desenvolve-se na “Granja do Solar”, propriedade do Sr. Jones. Naquele cenário despontam os seguintes personagens: os porcos, os mais inteligentes dos animais (o velho Major, mentor intelectual da Revolução; Napoleão, o grande líder e “pai” de todos; Bola-de-neve, de palavra fácil e íntegro; Garganta, interesseiro, astuto e persuasivo); os cachorros “capangas” (Ferrabrás, Lulu e Cata-vento); os cavalos (Sansão, forte e de pouca inteligência mas de sólido caráter; Quitéria, uma égua volumosa, matronal; Mimosa, égua vaidosa, fútil e egoísta); o burro (Benjamim, o mais velho e moderado dos animais); a cabra Maricota; as ovelhas, as vacas, os patos, as galinhas, o gato; Moisés (o corvo espião do Sr. Jones).

 

3. As péssimas condições em que viviam os bichos daquela granja favoreceram a tomada de consciência. Perceberam que precisavam reverter o quadro e pôr fim aos maus-tratos, à exploração e ao descaso infligido pelo Sr. Jones. Pois os animais trabalhavam até a exaustão; recebiam pouca comida e ainda tinham que suportar a venda de suas crias, de seus ovos, o comércio de suas carnes, além da violência das esporas, dos chicotes, das ferraduras, da marcação. Assim para eles, a solução para todos aqueles problemas era a eliminação do Homem. O Homem era o verdadeiro e único inimigo.

 

4. É neste clima de revolta que surge a voz profética do velho Major. Ele recorda uma antiga canção que proclamava a conquista da liberdade e da dignidade de todos os bichos da Inglaterra. Após a sua morte os animais, liderados pelos porcos, fazem a revolução. Expulsam de suas terras o Sr. Jones. A “Granja do Solar” passa a chamar-se “Granja dos Bichos”. Os porcos então aprendem a ler e escrever. Estabelecem os princípios do novo sistema, a saber, do Animalismo e editam os seus mandamentos. Os animais acolhem, com alegria e obediência, tal ensinamento, já que, agora, finalmente, estariam libertos de toda sorte de escravidão.

 

5. Entretanto, passados os primeiros meses, sobrevém uma profunda decepção. Os porcos entram em divergência entre eles por causa do poder. O mais leal e íntegro é jogado fora e marginalizado. É tachado de traidor e considerado presença perniciosa. Ocorre então o desrespeito por todos os valores anteriormente firmados. Surgem a mentira, a farsa, a corrupção, os privilégios, a manipulação e o jogo das palavras. Enfim, toda espécie de prevaricação O domínio usa como bandeira a liberdade. Isso leva o autor a concluir: “Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez, mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco” (o.c., pág. 98).

 

6. Por certo que o conteúdo dessa estória representa a própria história dos homens em relação ao poder. Todo sistema de poder que desconsidera a pessoa humana, seja ele de esquerda, seja de centro ou de direita, decai sempre em algum tipo de despotismo. Nada melhor então do que acolher as sábias palavras do imortal Miguel Reale, o gênio da Filosofia do Direito: “O essencial, em suma, é reconhecer o status originário e primordial da pessoa humana como valor fonte, evitando-se não somente o mal irreparável das ideologias totalitárias, mas também toda e qualquer forma de autoritarismo” (in “O Estado Democrático de Direito e o Conflito das Ideologias”, pág. 111).

Portanto, o conteúdo ético de “A Revolução dos Bichos”, aplica-se à atualidade. Ao olhar em volta, contata-se que tanto na política como na religião ou na economia, aí, prevalece o princípio pragmático do utilitarismo maquiavélico que é a lei do mais forte. Vem, então, a calhar, aquele comentário de Rui Barbosa realizado na Conferência de 14 de julho de 1916, na Faculdade de Direito de Buenos Aires: “La raison du plus fort est toujours la meilleure. A fábula de La Fontaine encerra em si toda a evolução contemporânea do direito das gentes cultas. Que vale ao cordeiro estar bebendo abaixo do lobo, no veio da corrente, se, a despeito da evidência, o apetite do carniceiro voraz o argúi de lhe turvar as àguas?”(in “Rui Barbosa – Discursos, Orações e Conferências”, pág. 90).

 


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